Introdução alimentar

As postagens até agora seguiram uma ordem cronológica das ações Montessori que implementamos em casa a partir do nascimento de Isa, mas achei melhor quebrar um pouco essa sequencia para dialogar com mães e pais que já passaram dessa fase inicial. Vamos dar um pulo para os seis meses e mais, quando fizemos a introdução alimentar.

Acho que não vale a pena aqui entrar na polêmica da forma de apresentação da comida (BLW, papa batida ou amassada, etc.) ou do tipo de alimento a ser oferecido (frutas primeiro ou não, suco ou não,…). Nós aqui experimentamos quase todas as opções até chegar no nosso modelo ideal, e mesmo assim esse modelo está sempre mudando. Vou focar no que considero ser a essência de Montessori, permitir a autonomia e independência da criança, nesse caso, na alimentação.

Da mesma forma que preparamos o quarto para dar independência no sono, devemos preparar o ambiente para as refeições. Montessori desenhou uma mesa e cadeira de introdução alimentar que são firmes, pesadas, largas e baixas para que sejam acessíveis e seguras desde os seis meses de idade. Encomendei as minhas com um marceneiro conhecido e foi barato (R$200), só foi demorado (quem conhece um marceneiro que cumpra prazo em Salvador me avisa). Caso queira mandar fazer uma, deixei as medidas que usamos para a nossa nas fotos abaixo. Clique aqui para baixar o arquivo em PDF. Caso queira comprar pronta, tenha cuidado com as disponíveis nas lojas, ainda não vi alguma que fosse realmente estável que possam ser usadas por bebês. Aqui (Esclarecimento) tem uma marcenaria que faz e envia para todo Brasil.

Além do uso da mesa e cadeira baixos, Montessori dá algumas outras orientações na forma de apresentar e conduzir as refeições. Vou citá-las bem objetivamente e você vai poder ver melhor no vídeo:

–       o adulto deve sentar-se do lado oposto a criança para que ela possa ver seus movimentos;

–       os utensílios (pratos, talheres, copos) devem ser igual ao dos adultos (mesmo material e não os infantilizados), só que em tamanho menor;

–       o babador preferencialmente que feche com velcro e do lado, não atrás;

–       deve estar disponível uma bucha pequena para limpar os “acidentes”. Caso ocorra, limpe devagar e cuidadosamente para que o bebê veja;

–       prepare tudo com antecedência para não haver distrações na hora da refeição. Até que o bebê esteja habituado a comer sozinho, procure fazer sua refeição em horário diferente. Quando for comer lembre-se que uma mente absorvente lhe observa o tempo todo, procure dar um bom exemplo e evite comer em pé na cozinha;

–       para o desenvolvimento de bons hábitos e evitar engasgos, a criança deve permanecer sentada durante toda a refeição. Uma forma de fazer isso no começo é colocar a cadeira contra a parede e segurar a mesa com o pé. A partir dos 15 meses ela já pode aprender que ao se levantar está sinalizando que terminou;

–       a partir do início, aos seis meses, já ofereça uma colher para que vá treinando. Nesse momento também já pode iniciar o uso do copo, primeiro você dando em sua boca, depois demonstrando e deixando que tente;

–       entre 12 e 14 meses o garfo pode ser introduzido.

 

Longe de ter esgotado o tema em um texto apenas, mas antes que essa postagem fique grande demais, quero finalizar fazendo um breve relato do que foi e tem sido a nossa experiência em termos de ambiente preparado para independência nas refeições:

Mesa e Cadeira:

Deixei para encomendar a mesa e cadeira Montessori quando Isa completou 6 meses e acabamos recebendo 3 meses depois! Imprevistos acontecem, então começamos a introdução de forma improvisada na cadeirinha que balança (nada recomendável), depois numa cadeira de alimentação portátil. Usamos somente a mesa e cadeira Montessori dos 9 aos 11 meses, quando compramos essa cadeira do vídeo abaixo. Muito usada por famílias que praticam Montessori para que as crianças também participem das refeições em família. A diferença desse cadeirão para os outros é que ele varia a altura do assento e apoio dos pés, possibilitando que a partir de certa idade a criança entre e saia sozinho e assim mantenha sua autonomia. Isa começou a subir sozinha entre 17 e 18 meses.

Utensílios:

Desde a primeira refeição eu dei uma colher para Isa segurar, enquanto eu dava a comida com outra, e ela logo entendeu o que era pra fazer (veja o vídeo abaixo “Isa gosta de batata”). VIDEO Ao mesmo tempo, até hoje com 17 meses, não vejo problema quando ela pega a comida com a mão. Não tenho pressa que ela use somente talhares para comer. Como dito acima, Montessori recomenda o uso dos mesmos materiais nos utensílios para as crianças, mas não é fácil encontrar nas lojas físicas talheres de tamanho infantil que não sejam infantilizados, então começamos usando as colheres de plástico que ganhamos mesmo. Depois comprei esse conjunto da Tramontina (Esclarecimento) pela internet.

Isso também significa copo de vidro, o que é sempre polêmico. Encontrei alguma resistência da família, mas consegui introduzir lá pelo 7, 8 meses de Isa e só tivemos dois copos quebrados por acidente, sem feridos. Comecei usando uns copos de tequila que tinha em casa, depois achei esse da foto de 50ml na Ferreira Costa aqui (Esclarecimento) em Salvador. O cuidado que temos é de não deixar ela caminhar enquanto está com o copo na mão. Atualmente também uso um de plástico que ela ganhou de aniversário e gosta muito.

Mudanças ao longo do caminho:

Se você tem um bebê, bem sabe que a cada mês ele é um bebê diferente e isso requer ajustes o tempo todo. Até fazer o vídeo eu nunca tinha tido problemas com Isa querendo sair da mesa antes de terminar, por isso a cadeira dela não está contra a parede. Isso mudou quando ela cresceu. Talvez seja uma boa já começar desse jeito para a criança não estranhar depois.

Até completar 1 ano Isa comia muito bem, o que facilitava implementar essas ações porque como não havia preocupação com a ingestão de comida, conseguíamos focar em outras coisas. Próximo ao aniversário dela, Isa começou a perder gradualmente o apetite até chegar dias de mal querer comer. Nas diversas investidas que fizemos para melhorar a ingestão de alimentos foi que ela fizesse todas as refeições conosco e realmente surtiu algum resultado. Ou seja, hoje usamos muito mais o cadeirão para alimentação e a mesa baixa para as atividades.

De tudo que eu posso compartilhar aqui, o mais relevante é o conteúdo dessa citação abaixo de Maria Montessori: é muito mais fácil simplesmente dar comida na boca da criança. Suja menos, é mais rápido e requer menos preparações por parte do adulto. Então se você quer realmente proporcionar a independência do seu filho, seja persistente e paciente.



12 comentários sobre “Introdução alimentar

  1. Estamos prestes a vivenciar este momento, então tenho lido muito a respeito e são muitas informações devido às vertentes.
    Gostei do post porque fornece uma síntese de aspectos importantes da IA na corrente Montessori. Me considero leiga e o blog juntamente com outras fontes têm me apresentado esse mundo. Os relatos da experiência de vocês aqui é que torna tudo bem “real”… Perrengues, etc…
    Como leiga, fiquei com algumas dúvidas:
    1. Por que o babador escolhido tem o feixe lateral?
    2. A questão dos talheres e utensílios “infantilizados”… Pode atrapalhar? (Sai para comprar e a maioria é assim!!! Super difícil achar diferente. Aff…)
    3. Confesso que fiquei curiosa… Essas dicas são independentes do método utilizado? (BLW ou papinha)

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    • Oi Debi, obrigada pelo seu comentário! Fico feliz que tenha achado coisas úteis pra você aqui. Tomara que consiga responder bem às suas perguntas. Vamos lá:
      1- O babador com com abertura lateral é para que a criança consiga ver o que você está fazendo e com velcro é pra que no futuro ela mesma possa colocar e tirar o babador com mais facilidade;
      2 – Montessori é contra todo tipo de infantilização com a criança. Para ela, era uma questão de respeito com a criança porque o que ela quer é imitar o adulto. Utensílios que mais parecem com brinquedos do que com utensílios não lhes proporciona a experiência real. Entregar-lhe objetos com os mesmos materiais que os dos adultos é também como estar dizendo “confio em você” e sempre será uma oportunidade de aprendizagem. Se a gente cerca a criança com objetos inquebráveis ela não aprenderá a lidar com eles;
      3 – Montessori falava em como oferecer a papa de modo a favorecer a independência da criança, mas na época o BLW não era tão difundido, possível que ela não o conhecesse. Os defensores do BLW dizem que se estivesse viva atualmente, Montessori seria a favor dessa modalidade porque é a que tem mostrado cientificamente trazer maiores benefícios para a criança e como Montessori era uma cientista ela teria acompanhado os avanços. Não sei lhe confirmar se de fato o BLW é mesmo cientificamente o melhor, o que sei é que Montesori defendia o uso dos utensílios logo na introdução alimentar. O BLW, por oferecer os pedaços de alimentos inteiros, dispensa os utensílios, para que a criança explore o alimento com as mãos e abocanhe o pedaço que consegue. Eu pulei todo esse debate na postagem porque acho que em algum ponto sempre vai haver uma mistura de BLW com utensílios, não importa por onde você comece. Se por um lado você começa com BLW, em algum momento você vai introduzir a colher para comer os grãos por exemplo. E se você começa na papa, em algum momento a criança vai querer explorar com as mãos e você pode ir colocando alimentos mais macios.

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  2. Obrigada Mari! Além de esclarecer minhas dúvidas, acrescentou mais informações. Percebo que, na prática, a criança sinaliza tais necessidades… É preciso um olhar muito cuidadoso e respeitoso para conseguirmos atendê-las em seus anseios de desenvolvimento.

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  3. Mari amei seu blog. Lendo percebi que utilizei do metodo sem ter o conhecimento profundo na teoria. Minha menina de 2 anos come desde 1 ano em uma mesinha pequena é de plastoco mas teve o mesmo efeito. Estou na minha segunda bebê que completou 6 meses e estou na IA, estou usando o cadeirão comum e tenho usado a colher + blw pq deu certo com a minha primeira. Essa questao dos utensilios igual do adulto é muito interessante. Percebo que quando dou copo de vidro a minha mais velha gosta muito. Realmente ela sempre quer o que o adulto utiliza rsrs Vou agora substutuir os de plastico para os semelhantes aos de adulto. Espero encontrar.

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  4. Adorei o post. Meu filho sempre comeu super bem mas agora que está com 1 ano e 4 meses começou a rejeitar as refeições. Estou em busca de mudanças e melhorias. Gostaria de saber de onde é o cadeirão de madeira. Vc também mandou fazer?

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  5. Ola, super interessante o post. Eu estou estudando o método mais a fundo e ainda nao me deparei com esse tipo de informação q vc mencionou sobre introdução alimentar. vc poderia indicar o livro/fontr pra q eu possa estudar mais a respeito? Super obrigada 😉

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  6. Olá!
    Você teve nova experiência com sua filha rejeitando a comida?
    Minha filha de 1 anos e 10 meses não come mais “da mesma forma”, escolhe o que comer e “cisma” com alimentos que antes gostava. Agora está na fase do arroz. Só come o arroz e nada além que estiver no prato.
    Eu entendo que existem fases, e não me preocupo com a nutrição em si pois está com um peso bom, mas me sinto perdida, pois até 1 ano e seis meses ela comia no mesmo ritmo que meu marido e eu, e agora, nossas refeições são conturbadas. Evito brigar, mas perco a paciência, mais porque eu quero comer em paz do que por ela não comer (como ela não quer a comida, chora, quer jogar o prato longe, essas coisas…).
    Não encontrei um “método Montessori” de como lidar com a comida nessa fase…

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    • Oi Rak, tudo bem aí? Eu bem sei como é dificil, mas veja a possibilidade de deixar ela sair da mesa depois que ela comeu o arroz. Talvez colocar uns Brinquedos num local próximo que vocês possam ver, ou trazer um papel com lápis para pintar. Alguma coisa que a distraia até que vocês terminem de comer.
      Também não conheço nada pelo método tão específico, mas nos casos dessas lacunas aplicamos a filosofia. Ou seja, o respeito profundo e a ahtonomia.

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