O adulto: acusado

MAEC-20160831Adoro escrever os textos da #qlq (qual o lembrete de quarta?), mas nas últimas semanas me vi em conflito para decidir o tema porque sentia que estava sempre acusando os pais e isso me deixa bem desconfortável.

[Para quem não tem acompanhado o blog, a #qlq foi uma hashtag que criei para compartilhar reflexões sobre criação de filhos de uma perspectiva de mãe para mães e pais. A idéia surgiu ao mandar e-mails semanais para o meu marido sobre o tema. Por isso me identifico muito com as esposas que marcam seus companheiros aqui nos comentários.]

Meu conflito se apaziguou quando li o capítulo “O acusado”, de Montessori em “A Criança”. Ela nos diz é que a defesa da criança passa pela acusação do adulto mesmo, mas essa não é para ser entendida como uma humilhação porque não aponta um erro por falha ou ineficácia e sim um erro por desconhecimento. É uma acusação nobre.

Denuncia erros inconscientes – e por isso, se engrandece, conduz a autodescoberta.

Maria Montessori

E ela continua: para tratar a criança de forma diferente da atual e liberta-las da repressão habitual é preciso mudar o adulto. O que nos leva à mudança é essa autodescoberta provocada por uma acusação de algo que não sabíamos que estávamos fazendo erradamente.

Acusação é uma palavra forte, eu sei, mas Montessori é implacável.

A pregação em favor da criança deve persistir na atitude de acusação contra o adulto: acusação sem remissão, sem exceção.

Maria Montessori

E por que Montessori é tão dura conosco? Porque nossa função de educar crianças é a coisa mais importante do mundo. Montessori vê a criança como a esperança da humanidade e nosso papel é tão importante que ela não aceita desculpas.

A primeira reação é de defesa, um protesto: “Fizemos o melhor possível; as crianças são o nosso amor…”… A defessa é conhecida, antiga, radical e não tem interesse.

Maria Montessori

Estou no papel de mãe e sei o que é ser bombardeada com milhares de informações o tempo todo sobre o que fazer com nossos filhos, mas calma, Montessori não está se referindo a parto normal ou cesárea, creche ou casa, suco ou BLW ou marcas corretas de protetor solar … a lista é infinita. O que Montessori pede é simples, mas igualmente difícil, que é para deixarmos de lado o nosso egocentrismo. Normalmente olhamos à criança do nosso ponto de vista, elogiamos sempre que é manifestado comportamentos que são valorizados no adulto, mas ela não é um adulto. Devemos fazer um esforço enorme e diário para enxergar a criança do seu ponto de vista, respeitar sua curiosidade, seu ritmo, suas repetições, sua “teimosia”. Quando conseguimos esse novo olhar fica tão notório nosso erro que partimos imediatamente para conserta-lo:

Fazer uma introspecção não é tão difícil quanto se supõe, pois o erro, embora inconsciente, causa o sofrimento da angústia, e a menor sugestão do remédio faz com que se sinta uma aguda necessidade dele.

Maria Montessori

E é por tudo isso que continuarei compartilhando com vocês aqui nossas reflexões sobre esses erros e como temos tentado melhorar aqui em casa. Estamos todos no mesmo barco, errando, mas tentando melhorar sempre. Contem comigo não só para acusar, mas também para ajudar no que for possível.

 

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