“Nunca forçar uma criança a comer. Nunca!”

meu-filhoValeu muito a pena vir de Salvador pra São Paulo ouvir Dr. González. Pra quem não conhece esse nome, ele é um pediatra espanhol, defensor da importância do aleitamento materno e da criação com apego. Veio dar palestras de dois dos seus livros que acabaram de ser lançados em português: “Meu filho não come!” e “Besame mucho”. Nessa postagem compartilho um pequeno resumo do que aprendi aqui.

Por que eu vim pra São Paulo assistir uma palestra? Porque minha filha não come e isso estava deixando a família toda estressada, por mais que procurássemos relaxar. Isa está com 25 meses e até os 12 comia super bem. Depois do aniversário, como num passe de mágica, passou a não comer quase nada (em quantidade e variedade). No entanto, continuava crescendo e engordando adequadamente e sendo uma criança ativa. Como a maioria das mães não me contentei com isso, não podia ser possível que minha filha passasse o dia comendo quase nada. Isso me levou a fazer coisas que pensei que nunca faria: desde implorar pra que comesse, sair atras dela pela casa com o prato na mão, deixar trocar uma refeição por uma tigela de açaí  e até cheguei a não levá-la na natação porque não tinha almoçado. Eu sabia que nada disso estava certo, mas não conseguia aceitar que ela ficasse sem comer.

Na palestra Dr. Gonzalez foi muito claro e mostrou uma série de evidências para embasar sua afirmação: “Nunca forçar uma criança a comer. Nunca!”

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Isso significa não forçar sob nenhuma desculpa e de nenhuma forma: nem na força, nem pedindo, nem fazendo chantagem emocional (“mas eu fiz com tanto carinho”), nem punindo (“se não comer não sai da mesa”), nem premiando (“se comer o brócolis te dou a sobremesa”).

Bem resumidamente vou compartilhar as evidências e os conselhos que Dr.González apresentou:

  • Nem as organizações mundiais conseguem concordar quantas calorias exatamente a criança tem que comer. Muito menos determinar quanto de cada tipo de alimento. Estudos mais recentes demonstraram que uma criança pode comer até 3x mais que outra da mesma faixa etária e ambas serem normais.  Não se prenda na estimativa que o pediatra passou. Ele tem a obrigação de contemplar aquele que come 3x mais, para que esse não passe fome.
  • Todos concordam que um recém nascido deve mamar em livre demanda, ou seja, quanto quiser na hora que quiser. A criança não fica burra depois dos seis meses. Confie que ela continuará sabendo como, quanto e quando se alimentar.
  • As crianças diminuem seu ritmo de crescimento.  Não vão continuar comendo muito mais a cada mês/ano. Uma criança de 9 meses comprovadamente come a mesma quantidade de calorias que uma de 18 meses.
  • Apesar do ritmo diminuir, eles ainda estão em crescimento e o estômago é pequeno, por isso preferem alimentos calóricos. Ofereça frutas, legumes e verduras, mas se ele não quiser comer, tudo bem.
  • A seletividade para determinados alimentos faz parte das preferências alimentares no ciclo de vida do ser humano. Crianças e velhos são muito resistentes a provar coisas novas. Tenha em casa apenas alimentos saudáveis (que não significa light), dessa forma mesmo que queira escolher apenas o mesmo alimento sempre, não será de todo mal. Não adiantará insistir.
  • Toda mãe tem uma boa noção do que é saudável, com exceção de bolachas e sucos. Esses dois, apesar da crença popular ditar que sim, na verdade não são saudáveis. Para quem quiser pesquisar mais sobre alimentação saudável Dr Gonzalez recomendou esse site da Harvard.
  • Respeitar o que a criança quer comer não significa fazer sempre o que ela gosta. O cardápio deve contemplar toda a família. Tudo bem, e é natural, que ela coma menos nos dias em que não tem o que mais gosta.
  • Caso não queira comer nada na refeição oferecida à família, explique-lhe que é o que tem para aquele dia. Se mesmo assim não quiser comer nada, respeite. Se depois reclamar de fome, ofereça o mesmo de antes (sem soar como punição) ou algo que já esteja pronto e disponível na geladeira.
  • Os pais só devem se preocupar quando a criança começa a perder peso. Nesse caso, eles não devem força-la a comer e sim levá-la ao médico para fazer exames.
  • Ele frisou que é pai e sabe que tem dias que a criança passa o dia todo com um pote de iogurte e um pedaço de pão. Ele sabe que não é exagero de mães histéricas, mas mesmo assim, tranquiliza-se, eles tendem a compensar no dia seguinte.

Adendos não muito relacionados ao tópico, mas que surgiram em meio às perguntas e acho que vale a pena compartilhar:

  • Vegetarianos (não apenas veganos) devem fazer reposição de B12. Mais importante ainda para mães que amamentam. Ele recomendou o blog de um nutricionista vegano para maiores informações: Julio Basulto.
  • Pesquisas científicas publicadas recentemente comprovaram que o período da introdução do glúten (se mais precocemente ou mais tardiamente) não influencia no surgimento da doença celíaca.

Dr. González fez questão de esclarecer que ele não está vendendo um método de como fazer com que seu filho coma mais, apenas está pedindo às mães que não tenham brigas inúteis com seus filhos todos os dias.

Coincidentemente desde a semana passada Isa vem comendo bastante, mas ainda assim tem dias que só quer comer ovo. Talvez tenha passado uma fase e agora volte a se alimentar como no primeiro ano, talvez volte a comer pouco, não sei, só sei que estou muito mais convicta a realmente relaxar. Se só quer comer ovo tudo bem., mas não teremos mais um pote de açaí no freezer para casos de “emergência”.

11 comentários sobre ““Nunca forçar uma criança a comer. Nunca!”

  1. Adorei Mari! Estamos passando tb por essa fase, aliás, pela segunda vez, e sempre acontece de uma hora pra outra: em 1 mês a criança que comia dois pratos de comida pra sentir-se satisfeita agora consegue passar um dia inteiro com um copo de leite e um ovo cozido no almoço. Arranquei cabelos, supliquei, fiz chantagem, sai sem dar comida preocupada de dar fome ou se sentir mal na rua, enfim… agora tb relaxei. Come o que estiver disponível pra todos da casa, e tento não me estressar muito (é super dificil, mas conseguiremos!). Já deixei a escolinha de aviso pois já tivemos 2 dias que foi sem comer absolutamente nada no almoço, para que acompanhem na hora do lanche como será a refeição dela, e vamos caminhando! Enquanto estiver com peso adequado e com energia tento me conter pra não dar uma de mãe louca! rsrsrsrs! Bjos!!!!

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  2. Muito boa a postagem… Eu costumo obrigar Felipe a comer ( 21 meses), por justamente ficar com medo dele perder peso e ele gosta de coisas fáceis, eu não consigo entender como um bebê que tem 18 dentes na boca não mastiga carne e nem pedaços de verduras e coisas maiores…

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  3. Nossa Mariana!!! Primeira vez no seu blog e já estou encantada!! Excelente texto… por aqui estou na fase do macarrão… minha filha só come macarrão e eu já estava a ponto de enlouquecer… 😦 tentarei não surtar daqui pra frente!! Obrigada!! Bjos

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      • Olá,
        Após pesquisas na net, encontrei seu blog e meu filho faz a mesma coisa.. só quer comer arroz ou macarrão e ovo cozido.
        Como você faz no dia a dia?
        Li que o médico relatou que se após uma semana nao adiantar a tática, deve-se fazer o que exatamente? Voltar ao que era?
        E já teve dias em que sua filha não quis comer nada do que a família comia? E você deixou sem comer mesmo assim?

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      • Oi Patricia,
        Minha filha voltou a comer um pouco melhor e agora foi meu filho que competiu um ano e começou a mesma coisa 🙂
        O que eu faço é deixar eles comerem o que quererem. Quanto querem. Porque sei que é uma fase.
        No dia a dia o que faço é se não quiser comer o almoço da casa eu dou um tempo e ofereço um lanche saudável. No jantar ofereço a comida da casa e se continuar não querendo eu pergunto se quer ovo ou macarrão.
        O que Dr. González fala é que essa não é uma tática para que a criança coma mais, apenas uma orientação para que mães e crianças não briguem por isso. O que ele fala é que você insistindo ou não, brigando ou não, fazendo chantagem ou não, sua criança vai comer o tanto que ela quer comer.
        O que ele fala é para você pesar a criança, não insistir por uma semana e depois pesar de novo. Se a criança perder peso só porque você deixou de insistir, procure um médico.
        Espero ter te ajudado. Eu ainda fico estressada as vezes, mas tenho sempre isso em mente e me ajuda a me tranquilizar de novo.

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  4. O meu só quer besteira (13 meses) e com isso perdeu peso está com 8,300 estou ficando louca a pediatra passou um polivitaminico mas n estou vendo resultado n sei mais o q faço, detalhe ainda tá no peito q só pega p dormir
    Me ajudem me de uma luz Obg bjos

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    • Pela palestra do Dr. González, Renata, eu entendi que a alternativa é não ter as besteiras em casa.
      Se ele está perdendo peso, a pediatra deveria não só passar um polivitaminico como solicitar exames para saber porquê. Comente com ela isso.
      Se ele tá no peito é uma coisa boa, porque garante pelo menos alguns nutrientes 🙂
      Boa sorte e vamos mantendo contato.

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