Meu caminho rumo a violência zero com os filhos

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Quantas vezes você ameaçou sair e deixar seu filho em casa, ou no parque, ou na festa? E quantas vezes você demonstrou estar chateado com ele porque sem querer derramou comida e sujou a mesa? Você gritou com seu filho hoje?

A decisão de uma maternidade sem violência eu tomei antes dos meus filhos nascerem, quando comecei a ler sobre Montessori e o respeito pela criança. Nos 16 primeiros meses eu fui bem – com tropeços, mas bem. Até que há quatro meses me vi gritando com minha filha mais velha e percebi que precisava mudar. Eu até sabia o que fazer, mas tudo que tinha lido não estava mais conseguindo colocar em prática.

Será que idealizei a maternidade montessoriana? Como toda mãe, tinha motivos para estar estressada, que no meu caso era a dedicação exclusiva a duas crianças pequenas. O mais novo dormia mal desde que nasceu, a mais velha passava pela fase difícil dos dois anos e batia no irmão que começava a andar. Mesmo tendo muitos motivos para explodir, explodir não estava me ajudando a sair daquela situação. Na verdade, estava me aprisionando ali.

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Facebook da Mãe Solo

Comecei a me “confessar” com praticamente todos os pais e as mães que conhecia, mas o que eu ouvi deles não era o que eu queria. Todos pareciam cansados e repetiam as mesmas coisas: “Faço meu melhor e não aguento mais cobranças. Se ameaço, grito e me irrito de vez em quando é porque sou humano”Também sou humana e tenho empatia pelos pais,  mas naquele momento eu fiz uma reflexão: por ser mulher, grupo social oprimido por gerações, seria capaz de trazer pra minha realidade a ameaça, o grito, a irritação? E comecei a pensar… e se meu marido ameaçasse sair sem mim porque demoro de me aprontar? Se ele me segurasse forte pelo braço porque dei um chega pra lá nele num dia de TPM, como me sentiria?

Entendi que preciso ser a mudança que quero ver no mundo. Clichês a parte, se a minha tolerância é zero com a violência contra mim, como posso tolerar a violência que pratico? Não conseguia mais escrever nas redes sociais #machistasnaopassarao e deixar passar a minha violência. 

Naquele momento não encontrei a companhia que buscava, mas as jornadas são em parte solitárias porque iniciam de dentro pra fora.  O andarilho que pretende fazer o Caminho de Santiago sabe que encontrará boas companhias, que lhe incentivarão e lhe darão dicas valiosas, mas se ele não estiver determinado e disposto desistirá facilmente. Agora a expressão “adulto preparado” de Maria Montessori ganhava novo significado pra mim.

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Mas por onde começar? Eu decidi escrever um diário. A idéia veio do livro “Parenting from Inside Out”, do neurocientista Daniel Siegel: “Escrever pode ajudar a libertar sua mente dos enredos do passado e liberá-lo para se entender melhor.”. Ao escrever, eu conseguia notar que a minha irritação era apenas desencadeada pelo motivo mais aparente, que seria o comportamento da criança. O motivo real era uma necessidade minha não atendida, como a de chegar num compromisso no horário. O diário teve outro efeito: no momento da raiva eu lembrava que mais tarde teria a hora do acerto de contas com a minha consciência quando fosse colocar tudo no papel.

Como alternativa, poderia ter usado a Planilha de Rastreamento de Gatilhos. Fiz essa versão em português – para ver a original clique aqui. Eu não cheguei a usar, mas me pareceu o mesmo intuito do diário.

planilha de rastreamento de gatilhos exemplo

Montessori me dava outro ponto de reflexão. Por que diante de um mesmo comportamento reajo de uma forma se essa pessoa é meu filho e de outra se for um adulto?

A resposta a essa pergunta deixo nas palavras de Gabriel Salomão:

O adulto se crê superior à criança, verdadeiramente, sem que haja maldade ou perversão alguma em seu pensamento, de forma intencional. Ele se crê, porque maior, mais capaz, mais íntegro em seu caráter, forte em sua fibra moral, firme em seus princípios de vida. Sólido, em seus hábitos formados ao longo de uma vida de repetições. E esse adulto, autocentrado, tem certeza de que pode, por meio de seus esforços, suas tentativas, seu trabalho, formar a criança. Na verdade, diz Montessori, é a criança quem forma o homem. – Lar Montessori

E porque se crê superior, dizia Montessori, o adulto se enche de ira e orgulho quando a criança se recusa a obedecê-lo. Esses sentimentos continuaram presentes, mesmo depois do diário, mesmo com a certeza do meu objetivo. O que procurava fazer era controlar o impulso de reagir. De certa forma a transformação acontece também de fora pra dentro: o sentimento é de ira, mas se conseguir controlar o comportamento, verá que o sentimento se transmuta. No início era tão difícil  controlar o impulso que o sentimento me dominava e eu falhava bastante, mas foi um exercício que a cada dia foi ficando mais fácil. Ainda que longe da perfeição, hoje posso dizer que encontrei o meu botão da “paciência infinita”. Criei essa analogia ao famoso botão do “foda-se” que tanto falamos.

A minha ajuda externa vem principalmente de 3 lugares: um grupo de apoio criado por Elisama Santos, psicanálise e conversas incessantes com meu marido. Juntos, eu e ele chegamos a algumas conclusões sobre a violência :
⇒ Não dá pra ser não-violento apenas com um grupo de pessoas. A não violência tem que ser parte da sua vida. Se você estava xingando no trânsito, dificilmente conseguirá conter um gatilho disparado pelo seu filho;
⇒ O poder convida a violência. Precisamos ter atenção redobrada ao reagir com alguém que está subordinado em força, dinheiro ou cargo;
⇒ Pressa nos torna mais auto-centrados e por consequência mais violentos. Quando estamos com pressa achamos que todos têm obrigação de fazer qualquer coisa para nos atender;
⇒ Mostrar a violência do outro é um tipo de violência. Como apontar o erro do outro se dia desses você estava fazendo a mesma coisa? O melhor é mostrar pelo exemplo;
⇒ Violência convida a violência seja pelo revide ou pela defesa de alguém que está sofrendo alguma agressão. Precisamos de muito autocontrole ao ver um filho batendo em outro. Nossa primeira reação é de reagir com violência, por isso dizíamos que precisamos de treinamento de socorrista para essas situações limites. Para não deixar nossas emoções nos dominarem.

Dessas nossas ideias surgiu a parede da paz aqui em casa. Num próximo texto compartilho os links das imagens e o motivo para cada uma dela estar na parede.

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O que tenho visto de resultado desde que consegui ligar meu botão da paciência infinita é uma criança que chora muito menos, muito mais cooperativa, que me escuta ativamente e nossa relação melhorou 1.000%. A criança dá o que recebe e por isso a relação dela com o irmão também melhorou drasticamente.

22 comentários sobre “Meu caminho rumo a violência zero com os filhos

  1. Olá boa noite! Parece que essa matéria veio na hora certa pra minha vida, sou mãe do Miguel de 1 ano e 8 meses ele está numa fase linda, que necessita de muita atenção, principalmente porque cuido exclusivamente dele! A fase que estamos vivendo está muito difícil tanto pra mim quanto pra ele, me sinto despreparada no agir com ele nas birras que ele vem fazendo! E tenho isso muito na minha cabeça que violência gera violência! Mas mesmo assim venho ficando estressada muito fácil nos último meses, e falo uma, duas, na terceira já estou gritando ou dou tapas pra ele parar o que está fazendo de errado, mas a culpa vem na mesma hora que hajo daquela maneira com ele, queria conversar mas parece que ele não olha pra mim, aí parto para os gritos e não quero cria-lo assim! Quero muito mudar por ele e por mim! Queria muito sua ajuda! O que posso ler, ter informações sobre esse assunto? Para que eu possa tb conseguir criar esse botão de paciência infinita!!! Sinto o mesmo que vc, converso com outras mães e pais, mas parecem todos darem respostas prontas, que eu já sei, mas não consigo por em prática sabe! Me sinto a pior mãe do mundo por não conseguir como uma adulta me controlar emocionalmente. Grande abraço!

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    • Amanda, o primeiro passo é esse mesmo, a vontade profunda de mudar. Depois é o passo de formiguinha de cada vez que você se sentir desafiada tente mudar o comportamento, não gritar, não segurar forte e não bater de jeito nenhum. Quando essas deixam de ser opções a gente começa a inventar outras estratégias. Nem que seja se dar um tempo e falar com ele que vai precisar sair pra respirar um pouco só. No início parece muito esquisito, porque você está com muita raiva e agindo de forma totalmente diferente do seu sentimento, mas aos poucos isso vai mudando. Você vai vendo que cada dia vai ficando mais natural, o negócio é começar. Não se sinta a pior mãe do mundo, aceite seus erros como um aprendizado. Quando você explodir, pense depois como você poderia ter feito diferente e vai melhorando aos poucos. O diário ou a planilha ajudam nesse sentido. São ferramentas de auto-análise.

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    • Também almejo uma educação sem violência, é realmente é muito difícil
      Minha filha também tem 1 ano e 8 meses e parece que não me ouve. Mas percebi que ela me ouve menos ainda se eu gritar.
      Se eu bater, ela não deixa de fazer o errado, mas ao final da ação ela mesmo se bate. Ou seja, violência não é mesmo o caminho.
      Percebo ela mais colaborativa quando dou mais atenção para ela, e falo firme e pausado, sem gritar.
      Ainda tenho muito a aprender e lendo seu comentário, percebi que tenho que ler sobre o assunto.

      Mas uma dica é assistir o episódio do Daniel tigre em que ele fica bravo e tem vontade de gritar. A própria mãe canta a música para se acalmar, e achei uma lição para a gente que não quer que a criança perca o controle, mas nós mesmas perdemos.

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  2. E muito obrigada por você compartilhar essa informação com transparência e tão bem explicada! Assim você consegue ajudar muitas mães e pais! Muito obrigada mesmo de coracão!
    Bjs!

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  3. Ah, Marina. Me identifiquei do começo ao fim do texto. Também tive uns momentos de perder a paciência e ser violenta com a minha filha mas como no fundo eu sabia que aquilo era terrível, uma hora eu simplesmente disse não pra esse comportamento e comecei a estudar sobre a comunicação não violenta. Não sou apenas uma mãe melhor mas também uma pessoa melhor. É, claro que isso não é uma conquista definitiva mas só de estar no caminho já considero ser uma situação positiva. Vamos juntas, em prol de uma maternidade mais honesta e saudável e longe de violência.

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    • É isso que sinto também Cati. Não é uma conquista definitiva, mas nos dias que a gente é extremamente desafiada e consegue contornar com a não-violência nos sentimos tão bem né? É combustível para encarar os próximos dias. Obrigada pelas palavras sempre. Vamos juntas!

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  4. Que massa, Mari! Parabéns! Acho que no meu caso, minha infância negligenciada (sem violência física, mas com muita verbal e presenciando episódios com minhas irmãs) ajudou-me a dar muito mais atenção e amor as minhas filhas. Porém pra mim é muito difícil segurar o gatilho quando há uma crise. Também com psicoterapia entendo muitas coisas e espero que meu caminho também comece a ser permeado pela nao violência. É uma decisão importante, familiar, que moldará o futuro das nossas pequenas. Beijos!

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  5. Eu tento e tento buscar minha paciência infinita ! Mas estou sozinha nesta caminhada ! Meu marido e da época que acretida que filho deve apanhar ! Meu medo é ! E se eu estou errando ? Porque ? Minha filha não me escuta não me obedece ! Nunca fiz chantagem ou apenas bati e não sou partidária de falar vou te deichar aí ! Mas ela obedece a ele é comigo faz o que quer

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  6. Gratidão pelas dicas. O esforço é diário para manter a calma, tem dias que vai, tem dias que o desafio é maior. Gostei muito da ideia do diário, vou providenciar isso hoje mesmo. Gratidão!

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  7. Me emocionei com o texto e já estou na expectativa pelos detalhes da parede da paz. Fiz um curso de CNV com a Carolina Nalon que me ajudou muito a perceber que o silêncio tb não é bom qdo engolimos nossas necessidades…leituras e trocas deste tipo me ajudam a ver que não estou sozinha nos desafios da maternagem. Gratidão, Marina!

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    • Ana, obrigada. Eu também fiz um curso de CNV com a Carolina quando meu caçula tinha só 1 mês eu acho. Adorei! Recomendo para todos por volto constantemente aos ensinamentos da CNV em diversas situações da minha vida. Vou falar um pouco mais disso no próximo texto. Vamos trocando e superando esses desafios juntas sim. Eu que agradeço pelas palavras.

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  8. Relato maravilhoso e inspirador!
    Tudo o que eu precisava pra hoje!!!
    Também tenho dois, Bruno com 2 anos e 2 meses e Mila com 4 meses, passo pelos mesmos problemas com o mais velho batendo na irmã e desobedecendo constantemente. Os textos e áudios da Elisama me ajudaram demaaaais, já sinto meu mais velho mais empático, vejo o sofrimento dele em não conseguir reagir do jeito que ele queria também, ele sofre porque eu “brigo”, sofre porque quer brincar com a irmã mas sente algo ruim que não consegue explicar, sofre porque não consegue explicar tudo isso com as poucas palavrinhas que ele tem…. e esse entendimento do sofrimento dele que tem me ajudado a ter mais paciência.
    Amei a idéia do diário, vou aplicar por aqui também.
    Te admiro demais, te acompanho nessa jornada com os dois e te desejo toda paciência do mundo, porque amor eh nítido que não falta!
    😙😙

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    • Walessa!!! Tamo junta! Cara, esse desafio de 2 filhos em menos de 2 anos é punk! Mas a gente consegue. Até o mais novo completar 1 ano acho que a gente tá no modo “sobrevivência”, mas depois as coisas vão se ajustando e ficando mais confortáveis. Pelo menos foi assim aqui em casa. Sem dúvida a não violência melhorou a relação de todos aqui em casa, foi mesmo transformador. A gente falha, mas a falha agora tem sido realmente uma exceção. Vai me contando como tem sido pra você e o que tem achado de escrever o diário. Manda notícias.

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  9. Nossa!
    que texto incrível e necessário, Marina!
    Imagino o desafio que foi chegar a esse estágio de lucidez e ser capaz de trazer de dentro essas palavras e ações.
    Te parabenizo pela coragem em trilhar o árduo, mas recompensador, caminho do trabalho interno. Exige determinação e muita força de vontade, mas o resultado tá aí..
    muita ampliação de consciência, auto-conhecimento, e multiplicação do amor..
    cada vez mais entendo que o único e verdadeiro caminho que cura qualquer mal é o amor incondicional.
    E a sua fala vale, como você mesma disse, não apenas para os pais com os filhos, mas para qualquer situação que envolva o exercício do poder.
    Me tocou, e me fez refletir em vários aspectos da minha vida também.
    Gratidão pela partilha de alma.
    Beijos! 🙂

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    • Eu fiquei com esse tema revirando bem forte dentro de mim por um tempo Vaninha. Demorei bastante pra conseguir me sentir pronta pra falar tudo isso, mas sinto que valeu a pena. Estou imensamente feliz que tenha tocado você e outras pessoas. Que eu me sinta preparada pra falar do meu caminho não quer dizer que cheguei no meu destino. Ainda considero que estou longe dele, mas não tenho dúvidas que quero seguir nele. Qualquer mudança que a gente consiga fazer no caminho na não-violência já gera um bem enorme para nós e as pessoas que nos rodeiam. Vamo que vamo 🙂 Obrigada pelas palavras de incenitov

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