Fora das grades

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“Motricidade livre, o que é?

É favorecer o despertar da criança sem trancá-lo.

É favorecer um espaço em solo adaptado.”

Continuando nossa série com as lindas ilustrações de Bougribouillons. As anteriores você acha aqui e aqui.

Claro que o ideal é transformar toda a casa em um lugar seguro para a criança circular livremente, afinal a casa é dela também. Mas eu sei que isso não é só difícil, é quase impossível. Aqui em casa há 3 ambientes que as crianças ainda não podem circular livremente: a área de serviço (mesmo estando os produtos de limpeza em caixas), a dispensa (ainda é muito tentador ver tantos grão e potes e não mexer sem estragar) e embaixo da mesa do computador (por conta de um fio longo que ainda não resolvemos).

Se você ainda não preparou sua casa, reconsidere. Está entre as coisas mais importantes que você venha a fazer por sua família:

“Repetimos incansavelmente neste blogue: em casa, a casa basta. Na sua casa, você não precisa necessariamente de brinquedos criativos e inovadores. Sua casa, do jeito que ela é, adaptada para a criança, é suficiente. Vocês podem fazer de tudo, e ela pode fazer de tudo, nos cuidados com a casa, consigo e com os outros, desde limpar o vidro de uma janela, até preparar uma salada de frutas para o lanche de vocês.”

Gabriel Salomão, Lar Montessori – Aspectos de Montessori em Casa

Então se na sua casa, a sua realidade é que só dá para adaptar um ambiente (ainda), tudo bem. O importante é que nesse local ele possa acessar as coisas livremente. E só pra ficar claro, um ambiente não é um cercadinho. É um lugar que você se sentiria confortável em passar a maior parte do seu dia. Também não vale variar o confinamento: do cercado para a cadeira de balanço, para a cadeira de alimentação, para o sling, para o bebê conforto…

Uma vez vi uma mãe no Youtube dizendo que não mudou nada em sua casa depois que as crianças nasceram, porque tudo se tornaria uma oportunidade de ensiná-las que algumas coisas são proibidas. Não sei se ela continua com essa postura, mas eu vou resumir meu ponto de vista numa frase que é um mantra para muitas mães: “escolha bem suas batalhas”. Teremos muitas oportunidades de ensinar para as criança de que elas não podem mexer em tudo, mas não faça disso um objetivo de vida. Será cansativo para você, para a criança e irá minar sua auto-confiança. Imagine ouvir o tempo todo em sua própria casa: “não pode”, “tenha cuidado”.

Tenha em mente uma coisa, crianças demoram para adquirir a habilidade de controlar os seus impulsos. Isso só começa aos 12 meses e leva muitos anos de aperfeiçoamento. Imagino que você se dê conta disso quando se vê, no alto dos seus vinte ou trinta anos, sem conseguir resistir a uma barra de chocolate. Não espere nenhum auto-controle de uma criança menor de 12 meses. Não significa que você irá deixa-lo fazer tudo o que quer, significa que você vai estabelecer os limites necessários com gentileza e quantas vezes forem necessárias. Veja bem, com 12 meses eles ainda estão iniciando a compreender o que é esse auto-controle. Significa que as vezes, eles irão conseguir parar de bater a colher na mesa porque o barulho te incomoda. Meu conselho: tire do alcance das crianças tudo o que você não quer que eles mexam e que seja viável tirar, elevar, trancar. Mesmo naqueles ambientes que não serão adaptados completamente, diminua ao máximo seus momentos de embate.

Invista na adaptação da sua casa, invista dedicação, invista tempo, invista criatividade. Talvez depois tudo isso, você perceba que adaptar a casa não é necessariamente um investimento financeiro. Aqui o importante é a funcionalidade. Não dá pra comprar a cama casinha? Vende o berço, fica com o colchão no chão e com o dinheiro compra uns cestos para disponibilizar livros e objetos para o bebê explorar. Não dá pra comprar o chocalho de madeira? Procura na cozinha algo que não ofereça risco. Bebês amam objetos cotidianos.

Na hora de começar, eu diria que o mais difícil  é investir dedicação. Talvez você tenha que convencer outras pessoas envolvidas. Qual será a melhor tática com cada uma delas? Talvez seja abrir mão de ter razão. Porque na hora que você comprou aquela cama de solteiro para o quarto do bebê você tinha certeza que seria muito usada. E agora é difícil admitir, mesmo depois de meses sem ser usada como cama, que você errou nessa compra. As vezes a gente não quer tirar a cama porque é da avó que mora longe e visita o bebê todo mês. Como é difícil falar para essa avó amorosa e dedicada que ela ficará num lugar um pouco menos confortável eventualmente, porque a cama dela deu lugar a um espaço livre e seguro para a criança usar todos os dias.

Da minha experiência e da minha realidade, vale a pena todo esse investimento. Desejo boa sorte a tod@s que iniciarem esse movimento e contem comigo para ideias e opiniões.

3 comentários sobre “Fora das grades

  1. Marina, muito bom seu texto. Aqui em casa estamos fazendo estas adaptações para que nossa bebê de quase 5 meses se sinta parte da casa, sem restrições. Com certeza, em minha opinião, melhor dedicar tempo nestes processos do que tornar o “não mexa aí” comum em nossas relações. Queremos algo fluido para ela, assim como é com nós adultos. Grato por compartilhar esta série. Abs!

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