Antirracismo e crianças

Ijeoma Oulu

Ontem foi o dia da Consciência Negra e precisamos falar disso, mesmo que seja com um dia de atraso.

Há uns dois anos eu comecei a estudar mais profundamente sobre o racismo porque fui tocada por casos de racismo entre crianças de 4 e 5 anos que eu conheço. Crianças de famílias como a minha: brancos de classe média que se consideram progressistas e antirracistas.

Essas famílias, como eu, colocaram seus filhos em escolas progressistas, tinham livros com protagonistas negros, tinham bonecas negras… Obviamente essas pequenas coisas não foram suficientes para desestabilizar o racismo estrutural que envolve o cotidiano de todas as crianças.

A medida que comecei a ler mais sobre o assunto muitos conceitos do “senso comum” foram sendo desconstruídos. Um bem frequente é o de considerar o daltonismo racial das crianças brancas como algo positivo. Todas as famílias brancas que eu conheço pensam: meu filho não vê diferença, que maravilha! Só que não é bem assim, se você não começar a falar sobre raça e preconceito na perspectiva antirracista, o racismo estrutural o fará no sentido contrário. A neutralidade não existe. Sinto informar. Além disso, o daltonismo racial é só mais um privilégio branco que precisa ser entendido dessa forma. Pare para pensar: as crianças negras são confrontadas com as diferenças a todo momento desde muito cedo.

Infelizmente a quase totalidade das escolas não estão preparadas para ajudar as famílias a tratarem do assunto. Mesmo as escolas mais progressistas (com donxs brancxs) ainda abafam os casos de racismo. Não aproveitam essa oportunidade para discutir com toda a comunidade escolar. Chamam a família da criança envolvida no ato de racismo para informar o acontecido e a família sempre vai se eximir dizendo “lá em casa a gente não fala essas coisas”. Chamar uma família para apontar um ato de racismo praticado por uma criança não vai fazer cosquinhas no racismo estrutural. Talvez chamar toda a comunidade para discutir raça, racismo, privilégio, branquitude comece a mexer algo. Se é isso que queremos temos que cobrar das escolas. Nos posicionar.

DiAngeloDa nossa parte, mães e pais, precisamos refletir sobre nosso antirracismo e viver o antirracismo antes (ou ao mesmo tempo) que falamos dele com as crianças. Você gostaria que a escola do seu filho fosse mais diversa, mas você tem frequentado lugares com diversidade racial nos seus momentos de lazer? Tem buscado intencionalmente isso? Você tem lido autoras e autores negros? Tem buscado comprar produtos e serviços feitos por empresas cujxs donxs são negrxs?Tem lido sobre racismo e branquitude? Você sabe o que é o termo “fragilidade branca”?

Não quero parecer que estou no papel da pessoa que já tá com tudo resolvido apontando o dedo para os outros. Minha intenção é falar do assunto porque quanto mais a gente tira um tema do seu esconderijo mais a gente avança. Quero refletir e agir juntamente com vocês. Quero dizer que não falar disso é favorecer o racismo. Quero dizer que racismo é problema de branco.